Pessoas presunçosas: os Reis Sol


Não há nada mais irritante do que pessoas presunçosas, que se acham os arquétipos da perfeição. Aqueles seres que caminham napoleónicos pelas ruas, como se o andar de pavão em dia de acasalamento lhes conferisse o triunfo sobre outros. Olham-nos de soslaio com uma sobrancelha arqueada e suspiram como se nós, seres inferiores, lhes poluíssemos o ar. Consideram-se realeza, reencarnações de um Rei Sol que por ordem divina são naturalmente os escolhidos para reinar, sobrepondo-se a qualquer regra de boa educação. 

Existe todo um esquema de apreciação sobre aquele olhar clinico de sobrancelha arqueada. Naquele momento estão a avaliar a nossa aparência para perceber se merecemos receber um cumprimento cordial. Se usamos, por exemplo, roupa da Sacoor merecemos pelo menos um “Bom dia”. No caso de vestirmos ” Boutique Alcofa” é nos concedido automaticamente um suspiro incomodado, e se nos atrevemos a proferir um “Bom dia” somos presenteados com um silêncio de aviso tácito de que excedemos limites intransponíveis. Existe contudo uma conduta social que nós, os serventes, deveremos adotar sempre que nos cruzarmos com estes seres jupiterianos. Deveremos baixar timidamente a cabeça, evitando impreterivelmente o contacto visual, e de uma forma prostrada presenteá-los com uma vénia, demonstrando assim o nosso agrado por nos estar a ser permitido partilhar, por exemplo, o mesmo elevador. 

Todo o preceito e rigor que estes Deuses terrenos ostentam, quer no andar quer na indumentária, são obviamente normas adquiridas no berço,  ou, em alguns casos, conquistadas através do esforço árduo para pertencerem a esta elite a quem devemos idolatrar sem qualquer resignação. Existe toda uma postura que deve ser cumprida com toda a solidez. Não é permitido mostrar se quer um soslaio de um sorriso aos restantes mortais, pois isso poderá ser visto como um ato complacente e os servos têm de ser colocados no seu lugar sem qualquer laço afetivo com o seu amo. O queixo tem de estar altivo e o andar tem de ser seguro como se caminhassem por uma ala real num tapete de um tecido ornado a ouro.


Resumindo, acabo por ter pena destas pessoas, pois são notoriamente desprovidas de competências sociais e sem qualquer empatia para com o outro.  São pessoas que vivem no seu pedestal presas em gestos suprimidos , que desconhecem o quão bem sabe a espontaneidade. 

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